ENTREVISTAS E AFINS...

 

Vejam entrevista que Fernanda Ortega, estudante de jornalismo na PUC/SP, para concluir seu TCC, fez com Cleusa Santo no dia 31/08/2012.

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A cordelista Cleusa Santo, paulista de berço e paranaense de vida, conta sobre a sua infância, seus trabalhos e projetos e fala sobre as dificuldades de ser uma mulher no universo masculino do cordel em entrevista no Tendal da Lapa – São Paulo –, do dia 31 de agosto.

 

A: Conte um pouco da sua história: onde nasceu, em que ano, onde morou.

C: Meu nome é Cleusa Santo. Na verdade é Cleusa Alves dos Santos, e eu uso Cleusa Santo sem o “s”. Eu nasci dia 13 de março de 1954 – sou pisciana –, em Tarumã, interior de São Paulo, cidade que eu não conheço porque nós [Cleusa e a família] fomos para o Paraná quando eu tinha dois meses de idade. Então digo que sou paranaense porque fui criada no Paraná até os doze anos. Meus pais são baianos, de Jacobina, interior da Bahia. Depois voltamos para São Paulo.

 

A: E como foi sua infância no Paraná?

C: Eu fiquei numa cidade chamada Ibaiti, no interior do Paraná, até os meus 12 anos e depois viemos [Cleusa e a família] para São Paulo. O motivo da mudança foi o mesmo de quando meus pais vieram da Bahia para cá: a busca por melhores condições de vida. Eu digo que essa cidade, além de ser um monstro, ela também é uma mãe, uma mãe monstro.

 

No momento que cheguei na Avenida Ipiranga achei que os prédios eram muito altos e que as luzes eram imensas.

A: Você ficou assustada quando veio para São Paulo? É uma cidade tão grande.

C: Fiquei. Quando chegamos, descemos na Estação Júlio Prestes, meu cunhado foi nos buscar e me lembro que no momento que cheguei na Avenida Ipiranga achei que os prédios eram muito altos e que as luzes eram imensas. Eu não gosto de sítio, eu gosto de cidade.

 

A: Quando você era criança, seus pais contavam histórias pra você? Você sente que isso te influenciou a escrever?

C: Perdi meu pai muito cedo, tinha três anos quando ele faleceu. Mas eu lembro dele recitando “Pavão Misterioso”. Eu tinha um irmão que contava muitas histórias, foi o melhor contador de história que eu já vi na minha vida, parecia um filme quando ele falava. A gente não tinha televisão e nem rádio, então isso era muito presente. Até hoje escrevo sobre histórias que ele contava.

 

Eu sonho com um mundo melhor, acredito nas pessoas e não tenho vergonha de dizer isso.

A: Você disse que é pisciana. Como é a pisciana dentro de você?

C: Acho que sou bem pisciana mesmo. Achei que quando eu envelhecesse isso fosse melhorar. Pisciano é aquele que sonha, então para a poesia isso é incrível, para o cordel infantil é melhor ainda. Eu sonho com um mundo melhor, acredito nas pessoas e não tenho vergonha de dizer isso. Nunca julgo a pessoa, nunca julgo nada. Eu sou feliz. Lógico que eu gostaria de ter mais coisas, gostaria de ter um belo carro, mas eu sou feliz com o que tenho.

 

O cordel

A: E como você começou a escrever cordel?

C: Em 2000, quando minha filha tinha 15 anos, ela foi fazer um curso de teatro. Acompanhei as aulas e, mesmo com o medo de artista que eu tinha, me apaixonei pelo teatro e comecei a escrever do nada. Minha filha tinha uma prova pra fazer numa escola de teatro, mas ela não achava o monólogo ideal para apresentar. Aí, eu escrevi um para ela. Depois que ela interpretou meu texto, que se chamava “Os Encantos da Teresa”, o rapaz que estava avaliando os atores perguntou de quem era o texto e, quando minha filha disse que era da mãe dela e que era o primeiro texto para o teatro que ela tinha escrito, ele me disse: “Não, pera aí, a gente precisa conversar”. Então, comecei a escrever no teatro.

 

Ele já estava na minha veia porque o nome Cleusa veio da Creuza do cordel “Pavão Misterioso”.

O cordel veio depois, faz cinco anos ou quatro anos e meio, não sei. Já gostava do cordel, mas só depois fui descobrir o porquê: ele já estava na minha veia porque o nome Cleusa veio da Creuza do cordel “Pavão Misterioso”, um dos melhores cordéis já escritos. Fiz um curso de cordel com o César Obeid na Casa das Rosas e depois conheci a Caravana do Cordel. Antes não conhecia ninguém que fazia cordel aqui em São Paulo, estava sozinha: só eu e minha paixão –, porque o César deu o curso, mas era aquele curso rápido que você faz e vai embora. Naquele momento, sabia que queria escrever cordel, tinha tocado o meu coração, e comecei a escrever meu livro “Joselito e sua Cabra”. Mandei para a editora Luzeiro e fiquei esperando uma resposta, como tudo que você manda e fica esperando. Eles acharam diferente por eu ser paulista, por ser mulher e por escrever sobre um menino e uma cabra. Acharam que era um texto singelo. Então eles me chamaram e aí que começou a minha trajetória.

Cleusa Santo conta histórias no Vale do Anhangabaú

 

 

 

O cordel tá passando por um momento de salto alto e meia fina

C: No começo não foi fácil pelo fato de ser mulher, falar que eles tem preconceito nunca foi uma coisa aberta, mas a gente sente, e pelo fato de ser paulista, porque as pessoas acham que cordel é coisa de nordestino. Eu bato sempre na tecla de que cordel é coisa de brasileiro. Fazer a minha parte é mais difícil por causa disso, mas eu caminho com muita leveza. Brinco e falo que o cordel tá passando por um momento de salto alto e meia fina, por causa das mulheres chegando. Quando se trata de poesia, as pessoas falam que é coisa de mulher, mas, quando se trata de cordel, é coisa de homem. Por que não poderia ser também pra mulher se cordel é poesia?

 

A: E de que forma você sente em relação ao machismo? Sei que o ambiente do cordel é muito masculino, é muito difícil achar mulheres cordelistas.

C: Eu sinto que o universo é masculino. É a mesma coisa de quando uma mulher é caminhoneira. Sou cordelista e sou mulher, passo batom, amo e tudo mais. Quero trazer para o cordel a leveza da poesia. Meus cordéis são cor de rosa e femininos. Agora, quando estava dando aula aqui no Tendal da Lapa, estava dizendo que o cordel só tem dois públicos: aquele que não o conhece e aquele que o ama. Você conhece o cordel e passa a amar, não tem outro caminho. Eu amo ser cordelista.

 

Trabalhos

A: Com quais outros trabalhos você se envolveu antes do teatro e do cordel?

C: Eu sou depiladora de profissão. Trabalhei muito tempo no Studio W e no Jacques Janine. Venho da área da beleza, talvez seja por isso que eu vejo essa beleza no cordel.

 

A: E você ainda faz depilação?

C: Sim, tenho duas clientes que atendo há mais de 20 anos, então eu sou fiel, mas estou aposentada.

 

Eu percebi que o cordel funciona como palavras cruzadas

A: E como é o trabalho que você faz com idosos?

C: Eu experimentei o cordel em tudo que você pode imaginar, quando eu entendi o que era essa literatura linda, eu comecei a experimentá-la sozinha. A primeira coisa que fiz foi experimentar o cordel comigo, porque eu percebi que o cordel funciona como palavras cruzadas, por causa da métrica, da rima. Isso é bom para a idade. Se é bom para mim, é bom para os outros. Fui ao Centro de Referência do Idoso de São Paulo e me ofereci como voluntária. Fiquei seis meses como voluntária e, ao final, nós fizemos um livreto. O coordenador viu e falou “Peraí, você fez um livro”, e eu nem tinha noção do que tinha feito, só não queria deixar para trás aquela coisa tão bonita que todo mundo tinha escrito. Hoje estou contratada há quatro anos no Centro de Referência do Idoso: estou dirigindo um grupo de teatro e faço cordel, tudo com a terceira idade.

 

Quando você entra na arte, ela te empurra.

A: E como é seu trabalho aqui no Tendal da Lapa?

C: Eu amo esse espaço. Faço uma oficina todos os sábados com professores, são professores que vêm para aprender o cordel e levar para a sala de aula. Tem um sarau que eu e duas meninas organizamos que se chama “Arte Arteiras”. Estou muito feliz. Além da oficina que dou de cordel, tem também a oficina de contação de história. Quando cheguei aqui, não contava histórias, mas conheci duas professoras que eram contadoras de histórias. Nos encontrávamos e fazíamos assim: eu contava história em forma de cordel e elas contavam em prosa. Aí um dia eu comecei a contar em prosa também. Quando você entra na arte, ela te empurra. Voltei a estudar pela arte, eu canto um pouco pela arte. A arte começa a puxar de você o que você tem de melhor. Ou você responde ou não. Eu gosto de responder.

 

A: O que você está estudando?

C: Eu não tinha terminado o colégio. Então hoje estou fazendo supletivo no Mackenzie. Estou terminando, falta mais um ano. Levanto todos os dias sete e meia da manhã e estou lá. Quero estudar Filosofia na PUC se conseguir uma bolsa.

 

Publicações e preconceito contra o nordestino

A: Me conta um pouco sobre os cordéis que você publicou pela Editora Luzeiro.

C: Só editei pela Luzeiro, meu primeiro foi “Joselito e sua Cabra”, depois veio “Uma Formiga em Hollywood”, “Súplica de um papagaio”, “Uma Pedra no Meu Caminho”, esse último que foi premiado, e tem também “Rino: o rato que roeu a roupa do rei de Roma”. Vai sair também um texto que fiz chamado “O Migrante” falando sobre a trajetória de vir para São Paulo e o preconceito que São Paulo tem com o nordestino.

 

De vez em quando ponho sotaque porque é um direito meu.

A: E você sente esse preconceito por mais que você seja só filha de nordestino?

C: Não, não sinto. Mas que tem, tem. Tem também o contrário, quando eu vou recitar as pessoas falam “Nossa, mas você recita sem sotaque” porque estão acostumadas com o cordel com sotaque e eu faço sem. De vez em quando ponho sotaque porque é um direito meu, não é porque eu não moro lá que não posso usar.

 

A história que escolhe o contador.

A: Desses cordéis que você publicou, qual você mais gostou de fazer?

C: Livro é como filho, o amor é igual. O livro que eu mais gostei de fazer foi “Súplica de um Papagaio” porque lembro que sentei no computador era meia noite e duas horas da manhã o livro estava pronto. Foi muito louco porque a sensação que eu tinha era que ele estava sendo ditado. Foi uma experiência muito forte descobrir que você não cria a história, você recebe. Não sei se você sabe, mas é a história que escolhe o contador. Quando me falaram isso pela primeira vez, eu pensei “Imagina, esse povo é louco!”, mas hoje sei que às vezes você se prepara para contar uma história e acaba contando outra sem nem saber por quê.

 

Rica

C: É muito gostoso escrever, é uma terapia. Um dia eu disse “Vou viver de arte”. Tenho uma aposentadoria pequena, mas vivo de arte, das minhas duas oficinas e dos cordéis que eu vendo. Uma vez, uma criança me perguntou numa escola: “A senhora já está rica?” e eu falei “Eu já” e ela “Jura?” e eu “É, de alegria!”. Acho que o poeta fica rico de felicidade, o resto é consequência.

 

Cem não, oitenta.

A: O que você acha do cordel aqui em São Paulo?

C: Eu acho muito legal, São Paulo merece o cordel, porque essa cidade é 100% nordestina. Cem não, oitenta.

 

"Cleusa, você está na Caravana"

A: Você entrou na Caravana do Cordel. Como foi essa experiência e o que você acha do grupo?

C: Na verdade eu nem sabia que tinha entrado. Sempre pensava assim “Ai, acho que eles nunca vão me convidar", mas um dia falaram “Cleusa, você está na Caravana” e eu falei “Ah, tô?” e foi assim. Gosto de todo mundo, tenho respeito por cada um, aprendo com cada um, acho que só tem fera dentro da Caravana do Cordel, gente boa demais.

 

A: E você procurou pelo grupo?

C: Um anjo chamado Varneci Nascimento apareceu na minha vida. O Varneci me empurrou para a Caravana. Quando conheci o pessoal da Caravana, fiquei encantada com todo mundo, eu pensava “É agora que eu quero fazer isso mesmo”. Tinha medo? Tenho até hoje, às vezes chego perto de um poeta e penso “Ai meu Deus!”, mas depois eu lembro que eu não preciso ter medo, minha poesia é minha, é a minha verdade. Gosto de fazer parte da Caravana.

 

Catolicismo

A: Você é católica. Queria saber um pouco sobre a sua religiosidade.

C: Isso me ajuda muito. Sendo católica eu acredito na Virgem Maria, acredito nos anjos, e é muito legal colocar isso no cordel. Sempre tem um pouco do autor na obra, ela é o reflexo do autor.

 

O cordel nunca morreu, nunca vai morrer.

A: O cordel durante muito tempo ficou distante das grandes editoras, da publicação, ficou excluído do que era considerado academicamente como cultura. Você acha que hoje em dia isso melhorou? Como você vê essa situação?

C: Essa é a resposta que eu mais gosto de dar. Todo mundo fala que o cordel morreu. O cordel pra mim é como um submarino, ele desce para buscar mais grandeza e depois ele sobe para quem está aí para ver, quem não está nunca vai ver. Depois ele desce para buscar conhecimento de novo. Ele nunca morreu, nunca vai morrer. Não é só porque eu, Cleusa, estou dizendo, é porque poesia não morre, está dentro do ser humano.

 

Esopo, Maria, Ruth e Pedro

A: E quais foram as suas influências?

C: Como escrevo infantil, sou apaixonada por Esopo, Maria Clara Machado, Ruth Rocha, Pedro Bandeira. Sou tão fã de Pedro Bandeira que se você olhar o meu cordel “O Casamento da Chapeuzinho Vermelho”, você vai ver que usei a mesma estrutura que o Pedro Bandeira usa quando o personagem fala com o autor. Eu gosto de trazer isso para o nosso cordel.

 

De repente pode nascer uma árvore aí.

A: Quais são seus projetos futuros no cordel?

C: Eu não tenho nenhuma pretensão e tenho todas. Quando você começa a plantar, não tem como não colher. Eu estou plantando, se alguém me chama eu vou, às vezes cobro e outras não cobro. Então, de repente pode nascer uma árvore aí. Não pretendo, mas quero também um dia viver dignamente de cordel. Não quero vender um livro para pagar o café da manhã.

 

Procuro um amor

A: Você é muito romântica. Tem namorado?

C: Eu tenho, mas não posso contar. Tô brincando! Estou sozinha, mas adoro namorar. Acho que todo mundo deveria namorar, beijar na boca. Falando nisso, um jornal de Minas Gerais me entrevistou para falar sobre o cordel “O Casamento da Chapeuzinho Vermelho”. A repórter me perguntou: “Você não acha que está andando contra o fluxo? As pessoas não acreditam mais no amor e a senhora tá casando a Chapeuzinho Vermelho” e eu disse assim “As pessoas mentem que não acreditam no amor. As pessoas querem amor. Quem não quer? Eu também quero. Bota um anúncio aí ‘Procuro um amor’”.

Vejam o trabalho que Fabio Mendes entregou no curso de Ciências Sociais da UNESP, Marilia/SP, sobre literatura de cordel e experiência da arte, onde Cleusa Santo foi uma das pessoas entrevistadas na elaboração da pesquisa, inclusive utilizando um de seus cordéis. A_Literat...pdf (111,6 kB)

 

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